Novos Artigos
DIÁRIO DE UM PROMOTOR DE JUSTIÇA NA AMAZÔNIA II
No dia 24 de novembro de 2006, estava me refazendo dos impropérios das vicissitudes dos trabalhos da semana anterior e com febre de uma gripe, fitando as matas brejeiras e rio Amazonas na cidade de Almeirim, quando recebi um telefonema de pessoa especial, dizendo-me “estás vivo, ainda bem, pensei que tivesse morto”. Fiquei atônito e surpreso. Eu, morto...Disse ela: é....mataram um Promotor de Justiça, pensei que fosse o senhor! Respondi: não, não, estou vivo. Logo, tratei de telefonar e saber do acontecido. Uma navalha cortou meu coração quando soube que FABRÍCIO RAMOS COUTO havia sido assassinado com vários tiros, covarde e inescrupulosamente, por um facínora. Não agüentei...chorei até a febre ir embora de meu corpo e a mesma foi rápido. Não podia competir com minha dor. De imediato, providenciei uma vaga no vôo Monte Dourado/Belém. Misturavam-se em mim angústia, insatisfação, tristeza e demais sentimentos de fragilidade. Não aceitava o silêncio ou as manifestações reticentes da imprensa e das autoridades diante da gravidade dos fatos, procurando uma razão para justificar o assassínio, se isso fosse possível. Um Promotor de Justiça teve a sua vida ceifada no seu local de trabalho, numa sexta-feira, no início do expediente de trabalho. A motivação para o crime fora porque FABRÍCIO RAMOS COUTO queria andamento do processo do algoz JOÃO BOSCO PEREIRA GUIMARÃES. Assim, estava cumprindo sua missão nobre de realizar Justiça. Disso, fez-se o FABRÍCIO RAMOS COUTO um mártir para o Ministério Público do Estado do Pará e para todos do Brasil. Diante de tão péssimos exemplos na vida pública, FABRÍCIO RAMOS COUTO, por sua vida profissional aguerrida e combativa contra a corrupção e demais mazelas sociais, até na sua morte saiu como um vitorioso, não deu causa à violência da qual fora vítima, só falecendo porque não foi possível lutar com os instrumentos de justiça que sabia tão bem utilizar. Não venceu a ignorância, a tirania ou a violência...Pode-se matar um Promotor de Justiça, mas não pode-se matar o Ministério Público, nem os ideais tão nobres do FABRÍCIO RAMOS COUTO, representante dos maiores da nova Instituição Ministerial, a ser construída diariamente, por todos. O dileto FABRÍCIO RAMOS COUTO podia não ter morrido, pois não tivera óbito por causa natural e todos os Promotores de Justiça do Pará podem morrer igualmente como ele. Não temos segurança alguma, não contamos com escolta, coletes e ambiente de local de trabalho seguro. Sem dúvida, é melhor, por mais doído que seja, receber uma notícia ruim do que receber balas de arma de fogo no rosto. Todos se protegem como podem...Se já atacam um Promotor de Justiça, imaginem como fica a população. Só Deus nos guarda.
NADILSON PORTILHO GOMES
Promotor de Justiça